MÚSICA Música erudita ocidental |
Música na Antiguidade
A música no ocidente, assim como as mais diversas
manifestações artísticas, tem sua origem na Grécia e Roma
antigas.
Grécia Grande parte da terminologia musical, dos modos
musicais e dos tipos de temperamento (afinação) das escalas
originam-se na teoria musical grega. No século VI a.C.
Pitágoras demonstra proporções intervalares, numéricas, na
formação das escalas musicais. São bases severas para evitar o
subjetivismo incontrolável. A essa posição se opõe
Aristogenos de Tarento, para quem a base de uma teoria musical
não é numérica e sim a experiência auditiva.
Os gregos desenvolvem vasta teoria e produção musical ligadas
às festividades e ao teatro . Uma parte dessas composições é
recuperada graças a notação musical baseada no alfabeto, como
os Fragmentos de Eurípedes e a Canção de Seikilos.
Roma Escravos romanos oriundos da Grécia e cercanias
difundem a tradição musical grega e tornam-se figuras centrais
da música romana, presente em exibições de lutas e
espetáculos em anfiteatros. Os romanos recompilam, nos séculos
II e IV a.C., a teoria musical grega. Destacam-se Euclides de
Alexandria (século III a.C.), Plutarco (século I a.C.) e
Boécio, que no ano 500 d.C. traça as bases da teoria musical da
Idade Média latina.
Música medieval
O período é marcado pela música
modal praticada nas himnodias e salmodias, no canto gregoriano,
nos organuns polifônicos, nas composições polifônicas da
Escola de Notre-Dame, na Ars Antiqua e Ars Nova e ainda na
música dos trovadores e troveiros.
MÚSICA MODAL
A música modal se caracteriza pela importância dada às
combinações entre as notas e a seus resultados sonoros
particulares. De acordo com a função e o texto cantado, o
compositor usa um modo escalar diferente. O fundamento da música
modal é a composição melódica, seja em uma monodia (uma só
melodia) ou em uma polifonia (mais de uma melodia, simultâneas).
Himnodias e salmodias A música erudita no ocidente
começa com a proliferação das comunidades cristãs, entre os
séculos I e VI. Suas fontes são a música judaica (os Salmos) e
a música helênica sobrevivente na antiga Roma. As principais
formas musicais são as salmodias cantos de Salmos ou parte de
Salmos da Bíblia e himnodias, cantos realizados sobre textos
novos, cantados numa única linha melódica, sem acompanhamento.
A música não dispõe, então, de uma notação precisa. São
utilizados signos fonéticos acompanhados de neumas, que indicam
a movimentação melódica.
Monodia gregoriana A rápida expansão do cristianismo
exige um maior rigor do Vaticano, que unifica a prática
litúrgica romana no século VI. O papa Gregório I (São
Gregório, o Magno) institucionaliza o canto gregoriano , que se
torna modelo para a Europa católica. A notação musical sofre
transformações, e os neumas são substituídos pelo sistema de
notação com linhas. O mais conhecido é o de Guido
dArezzo (995? 1050?). No século XI, ele designa as notas
musicais como são conhecidas atualmente: ut (mais tarde chamada
dó), ré, mi, fá, sol, lá, si.
MÚSICA POLIFÔNICA
Os sistemas de notação impulsionam a música polifônica, já
em prática na época como a música enchiriades, descrita em
tratado musical do século IX, que introduz o canto paralelo em
quintas (dó-sol), quartas (dó-fá) e oitavas (dó-dó). É
designado organum paralelo e no século XII cede espaço ao
organum polifônico, no qual as vozes não são mais paralelas e
sim independentes umas das outras.
Escola de Notre-Dame A prática polifônica dá um salto
com a música desenvolvida por compositores que atuam junto à
Catedral de Notre-Dame. Eles dispõem de uma notação musical
evoluída, em que não só as notas vêm grafadas, mas também os
ritmos a duração em que cada nota deve soar. Mestre Leonin e
Perotin, o Grande, são os dois principais compositores dessa
escola, entre 1180 e 1230. Ambos, em seu modo de composição
rítmica, além da elaboração de vozes novas sobre organuns
dados, se abrem para composições autônomas. Abandonam o fluxo
rítmico do texto religioso, obedecido no canto gregoriano, em
troca de divisões racionais, criando a base para escolas
futuras.
Ars Antiqua Desenvolve-se entre 1240 e 1325, e suas formas
musicais perduram até o fim da Idade Média: o conductus, o
moteto, o hoqueto e o rondeau. O moteto é composto a partir de
textos gregorianos que recebem um segundo texto, independente e
silábico, cada vogal corresponde a uma nota, seja esta
repetição ou não da antecedente. Essa necessidade de cantar
cada vogal num novo som impulsiona a notação rítmica. Os
motetos que mais se destacam são realizados com textos profanos
sobre organuns católicos.
Ars Nova De 1320 a 1380 impera a Ars Nova, denominação
de um tratado musical do compositor Philippe de Vitry. O organum
e o conductos desaparecem, e o moteto trata de amor, política e
questões sociais. Variados recursos técnicos são utilizados
para dar uniformidade às diversas vozes da polifonia: as linhas
melódicas são comprimidas ou ampliadas e muitas vezes sofrem um
processo de inversão (sendo lidas de trás para diante).
Guillaume de Machaut é o grande mestre desse período. Utiliza,
com precisão, recursos como os baixos contínuos e a isoritmia
relação de proporcionalidade entre todas as linhas
melódicas da polifonia, possibilitando que as vozes se
desenvolvam sobre uma única base rítmica.
Música profana A atividade de compositores profanos, como
os minnesangers e os meistersangers germânicos e os trovadores e
troveiros franceses, é intensa entre os séculos XII e XIII. Os
trovadores da Provença, ao sul da França, e os troveiros, ao
norte, exercem forte influência na música e poesia medievais da
Europa. Suas músicas de cunho popular, em dialetos franceses,
enfatizavam aforismos políticos (como no compositor-poeta
Marcabru), canções de amor (Arnaud Daniel, Jofre Rudel e
Bernard de Ventadour), albas, canções de cruzadas,
lamentações, duelos poético-musicais e baladas. A base para
suas melodias são os modos gregorianos, porém de ritmo marcado
e dançante, com traços da música de origem moçárabe do
mediterrâneo.
Adam de la Halle (1237-1287) troveiro francês, menestrel da
corte de Roberto II de Arras, a quem acompanha em viagens a
Nápoles. Trata seus poemas em composições musicais
polifônicas, como os 16 rondós a três vozes e 18 jeu partis
(jogos repartidos), em que se destacam o Jogo de Robin e Marion e
o Jogo da folha, que podem ser classificados como as primeiras
operetas francesas.
Renascimento
Nos séculos XV e XVI a música
vocal polifônica passa a conviver com a música instrumental
nascente. Destacam-se a polifonia franco-flamenga (França e
região de Flandres parte da Holanda e Bélgica atuais), a
polifonia da escola romana e a música dos madrigalistas
italianos.
POLIFONIA FRANCO-FLAMENGA
Herdeira direta da polifonia da Ars Nova, a música da França e
região de Flandres realiza profundas mudanças na linguagem
polifônica. As vozes deixam de ser heterogêneas (sonoridades
mistas resultantes de textos diferentes simultâneos) e
entrecortadas, tornando-se alargadas e homogêneas. A rítmica
extremada cede lugar à naturalidade das linhas melódicas, não
submetidas às proporções matemáticas da Ars Nova. O moteto
dá lugar à canção, ao madrigal e à missa.
Primeira geração Destacam-se Gilles Binchois (1400-1460)
e Guillaume Dufay (1400-1474), que, tendo participado por nove
anos do coro da capela papal em Bolonha, acrescenta à polifonia
a sinuosidade das melodias italianas.
Segunda geração É marcada pela música de Johannes
Ockeghem, com quem a polifonia, de no máximo quatro vozes, é
ampliada até 36 vozes simultâneas, caracterizadas por fluxo
contínuo, ritmo brando e complexo.
Johannes Ockeghem (1420-1491) nasce em Termonde, na região de
Flandres Oriental, e estuda com o mestre polifonista Binchois. Em
1452, torna-se mestre-capela dos reis da França, em Paris, e
tesoureiro da Abadia de Saint Martin de Tours, em 1459. Dele
foram conservadas 17 missas, sete motetos e 22 canções e o
primeiro réquiem polifônico conhecido.
Terceira geração Destaca-se Josquin des Près, que volta
a empregar conduções vocais em movimentos paralelos, com uma
melodia marcada por rítmica mais uniforme. Os motetos são
retomados, com um forte simbolismo musical que realça o
conteúdo expressivo das obras. É dessa época também o
surgimento dos primeiros editores de música: Veneza (1501) e
Paris (1527).
Quarta e quinta gerações É representada por Adrian
Willaert (1480-1562), discípulo de Josquin, e por Orlando di
Lasso (1532-1594), compositor de 70 missas, 100 magnificats e
mais de 200 madrigais, entre outras obras.
ESCOLA ROMANA
No século XVI, em Roma, um grupo de compositores faz música
predominantemente religiosa, fundindo elementos da escola
franco-flamenga com a riqueza das melodias italianas. A escola
romana retoma o canto gregoriano na composição polifônica,
atendendo às exigências da Contra-Reforma. Seu principal
representante é Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594),
cuja obra é modelo para as escolas posteriores. A independência
entre as vozes melódicas, o equilíbrio harmônico (nenhuma voz
sobressai a outra) e a melodia agradável são ressaltados nos
tratados de Berardi, no século XVII, e de Fux, já no século
XVIII.
MADRIGALISTAS ITALIANOS
Do século XVI ao XVII, impera na Itália o madrigal, a
conjunção perfeita entre música e texto. O madrigal é
herdeiro direto das chansons francesas, que já possuem caráter
descritivo, como o canto de pássaros, os gritos de pregão nas
ruas, a narração de batalhas. Baseia-se na prática polifônica
e na homofonia nascente, além da monodia medieval. A música,
inspirada pelo texto, é fortemente descritiva. Certos recursos
sonoros são utilizados em situações determinadas: movimentos
cromáticos se associam à tristeza, um intervalo de quarta ou
quinta descendente corresponde ao choro etc. Por seu caráter
dramático, o madrigal é o elo de ligação entre a música
modal medieval e renascentista e a música tonal do barroco,
classicismo e romantismo. Seus principais compositores são Luca
Marenzio (1554-1599), A. Gabrieli (1510-1586), Carlo Gesualdo di
Venosa (1560-1613) e Cláudio Monteverdi (1567-1643).
Barroco
No período que vai de 1660 a 1750,
predomina uma música vocal instrumental voltada para o texto a
ser cantado. É a época das primeiras óperas, das grandes
cantatas e oratórios e da fuga, definindo o início da música
tonal. A polifonia, com as vozes melódicas independentes do
coro, cede lugar à homofonia. As melodias são simples,
acompanhadas, facilitando a compreensão do texto. A música
instrumental tem lugar privilegiado. Além de pontuar as óperas
com passagens instrumentais, desenvolve-se como linguagem
independente, favorecendo o virtuosismo técnico. A matriz
composicional deixa de ser o conjunto vocal de diversas vozes,
dando lugar aos instrumentos de teclado: órgão, cravo, espineta
(O cravo bem temperado, Prelúdios e fugas para órgão, de J.S.
Bach; as Sonatas de D. Scarlatti).
Música tonal Na música tonal, os modos medievais e suas
variantes são substituídos pelos dois modos tonais: o modo
maior e o modo menor. As alturas as notas são
organizadas em um desses dois modos, a partir de uma das 12
alturas cromáticas (as sete notas mais suas alterações,
sustenido ou bemol), as quais dão nome à tonalidade: dó menor,
dó maior, ré maior etc. O jogo principal é a resolução das
tensões harmônicas sobre o acorde principal da tonalidade. O
grau de tensão é aumentado de acordo com as dissonâncias, ou a
partir do recurso de modulação a passagem de um modo a outro.
Primeiras óperas A primeira ópera de que se tem
conhecimento é Dafne, de Jocopo Peri (1561-1633), apresentada em
Florença, em 1597, seguida de A representação da alma e do
corpo, de Cavalieri, em 1602. Essas primeiras óperas têm
dificuldade em concatenar música e cena e os textos são pouco
claros. Em Orfeu, de Monteverdi, de 1607, esses problemas estão
superados. A orquestra de Orfeu é renascentista, com
instrumentos de base (contínuos), formando um conjunto de sopros
e cordas. Monteverdi cria uma variedade de coloridos sonoros
ligados às diversas situações expressivas da ópera, como os
metais sempre associados ao inferno. Abre espaço para solos
vocais recitativos, onde o cantor fica mais livre para declamar e
atuar.
Fora da Itália, a ópera se desenvolve tardiamente. Na
Inglaterra, com Henry Purcell (1659-1695), e na França, com Jean
Baptiste Lully (1632-1687), um italiano naturalizado francês,
que retoma a tradição dos Balés de Corte, enquadrando seu
trabalho dentro do grande movimento cultural francês da época,
em que despontam Molière, Racine, La Fontaine, entre outros.
Claudio Monteverdi (1567-1643) nasce em Cremona e torna-se aluno
de Marc-Antoine Ingegneri, mestre da capela de Cremona. Passa 12
anos de sua vida servindo ao duque de Mântua, para quem produz
diversas óperas (Orfeu, O combatimento de Tancredo e Clorinda) e
diversos livros de madrigais. Em 1613, é nomeado mestre-capela
de São Marcos, em Veneza. Cria o concitato, um estilo musical
agitado que busca exprimir os tremores profundos da alma.
Oratório, cantata e fuga O oratório e a cantata são
formas vocais dramáticas não encenadas. Junto com o ricercari,
as suítes de danças, as tocatas para instrumentos solistas, o
concerto grosso onde um dos instrumentos é destacado e a sonata,
levam adiante a música tonal. A partir do antigo ricercari
desenvolve-se a fuga, forma musical baseada no princípio de
imitação: uma voz melódica acompanha a outra com uma certa
defasagem, caminhando as duas simultaneamente, num jogo
polifônico. O mestre dessa forma musical é Johann Sebastian
Bach .
Johann Sebastian Bach (1685-1750) nasce em Eisenach, na Alemanha.
Órfão, é educado por um tio. Começa como cantor na igreja de
São Miguel em Lüneburg, passando a violonista na corte de
Weimar. Em São Bonifácio de Arnstadt, consegue seu primeiro
cargo como organista. Dedica grande parte de sua obra a ofícios
religiosos (oratórios, cantatas, corais) e formações
instrumentais (Oferenda musical, A arte da fuga, Concertos
brandenburgueses, Concerto duplo para oboé e cravo), tendo
desenvolvido uma escrita particular para instrumentos solistas
(Partitas para violino solo, Suítes para violoncelo solo) e para
teclados (Prelúdios e fugas para órgão, Livro de Ana Magdalena
Bach). É um dos pioneiros no uso do temperamento
afinação dos instrumentos de teclado que permite tocar em mais
de uma tonalidade sem a necessidade de reafinar o instrumento
como nos seus prelúdios e fugas do Cravo bem temperado.
Concerto grosso Junto com a sonata, é uma das formas
instrumentais mais importantes da música barroca. Se baseia no
contraste entre duas massas sonoras diferentes. Um pequeno grupo
chamado de concertino, é sempre repetido por um grupo de maior
dimensão: o tutti (do italiano todos). O concertino consiste de
um trio de cordas e alguns sopros. Um instrumento, o continuo,
garante a fusão harmônica das linhas melódicas dos dois
grupos. Essa forma musical teve dois grandes mestres: Arcangello
Corelli e Antonio Vivaldi.
Antonio Vivaldi (1678-1741) nasce em Veneza, Itália. Filho de
violinista, estuda música e teologia ainda jovem. Ordena-se
padre pela Igreja católica e é chamado de o "padre
vermelho", dada a coloração ruiva de seus cabelos. Sua
música instrumental é um dos pontos altos da escritura musical
italiana da primeira metade do século XVIII. É inovador no uso
de escalas rápidas, arpejos extensos e registros contrastantes
em suas peças. Desenvolve principalmente a escrita para cordas,
em especial o violino. Muitos de seus inúmeros concertos para
instrumentos solistas e orquestra, concertos grossi, sonatas,
óperas e peças corais são ainda hoje desconhecidos. Sua obra
esperou até a metade do século XX para ser reconhecida. De suas
peças a mais popular é o ciclo As quatro estações.
Pré-classicismo
Ópera napolitana Desde o
início a ópera é a música mais popular na Itália, fazendo a
transição entre o barroco e o classicismo. O seu principal
compositor é Alessandro Scarlatti (1660-1725), pai de Domênico
Scarlatti (1685-1757), e a cidade de Nápoles é o centro da
atividade operística. Sob domínio espanhol de 1522 a 1707,
Nápoles difunde o estilo musical que predomina no século XVIII.
Da ópera napolitana são importantes: as grandes árias,
realizadas em solos ou duos dos personagens; a distinção entre
ópera séria (de temática erudita) e ópera bufa (de temática
retirada do cotidiano, que não se confunde com a chamada ópera
cômica); a inclusão de melodias ao gosto popular; e os
invariáveis happy ends, tornando a ópera um gênero musical
leve e popular. Entre seus compositores destacam-se Niccolo
Jommelli (1714-1774) e Davide Perez (1711-1778) compositores
napolitanos que serviram à corte de Lisboa , Alessandro
Scarlatti e também Joseph Haydn (1732-1809).
Alessandro Scarlatti (1660-1725) é nomeado mestre da capela real
de Nápoles em 1648, função que ocupa até sua morte. Leva a
ópera napolitana a limites inusitados. Escreve 115 óperas, 700
cantatas, mais de 200 salmos, inúmeros oratórios e diversas
peças de música de câmara. A maior parte dessa obra permanece
em manuscritos. Pai de Domênico Scarlatti, que anos depois
revoluciona a escrita para teclado.
Joseph Haydn (1732-1809) começa a compor muito jovem, dirigindo
uma pequena orquestra para o conde Morzin. Em 1761 é chamado
para dirigir a capela de música dos príncipes Esterhazy, aos
quais serve até sua morte. É responsável pela lapidação
formal da música instrumental, tendo deixado 104 sinfonias, 50
sonatas para piano e 80 quartetos de cordas. É considerado o
principal compositor da escola napolitana.
Classicismo
O passo definitivo para a música
tonal é dado com a sonata clássica. Nela os momentos de tensão
e relaxamento tornam-se a base da construção formal de obras
para instrumento solo e posteriormente para quartetos de cordas,
trios e sinfonias. Haydn e Mozart fazem da sonata a forma musical
mais importante do final do século XVIII e início do século
XIX. Esse projeto é levado às últimas conseqüências por
Beethoven. Suas sonatas deixam de ser jogos de divertimento ou
variações sobre as melodias principais e se tornam uma profunda
rede de interrelações entre ritmos, melodias e timbres. Junto
com Franz Schubert (1797-1828), Beethoven abre as portas para o
romantismo.
Sonata O termo sonata tem sentidos diferenciados. No
século XVII, designa uma peça polifônica, instrumental, que se
opõe à sinfonia, que é mais homofônica; posteriormente,
tem-se a sonata de igreja, em estilo de fuga, e a sonata de
câmara, composta de uma suíte (seqüência) de danças. Com
Boccherini e Carl Phillipp Emmanuel Bach, filho de Johann
Sebastian, a sonata toma a forma que perdura até o século XIX:
uma estrutura em três movimentos, com dois temas principais, que
são desenvolvidos por meio de variações rítmico-melódicas e
da modulação.
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) nasce em Salzburg, na
Áustria, filho de Leopold Mozart, compositor e professor de
música. A partir dos 6 anos, é levado a diversos países, onde
demonstra seu talento ao piano. Aos 10 anos compõe seus
primeiros oratórios e sua primeira ópera cômica. Em 1781 se
estabelece em Viena. Após uma temporada em Praga, volta para
Viena e compõe a ópera A flauta mágica, no ano de sua morte.
Deixa mais de 600 obras entre as quais 20 óperas; 15 missas
(incluindo o famoso Réquiem); 100 canções, árias e corais; 50
concertos para instrumento solista e orquestra; 17 sonatas para
pianos; 42 sonatas para violino e piano e 26 quartetos de cordas.
Romantismo
Sobre bases tonais sólidas, o
período romântico é o derradeiro momento da música tonal. As
formas livres, lieds, prelúdios, rapsódias, o sinfonismo, o
virtuosismo instrumental e os movimentos nacionais incorporam
elementos alheios à tonalidade estrita do classicismo e esta
lentamente se desfaz.
Ludwig van Beethoven (1770-1827) nasce em Bonn, Alemanha, e
estuda música por exigência de seu pai. É mandado para Viena,
em 1792, para completar sua formação, onde permanece por toda a
vida. Tem aulas com Haydn e pratica composição dramática com
Antônio Salieri. Apesar do temperamento irascível e compositor
de uma música considerada difícil para a sua época, é
bastante prestigiado em Viena. Em 1798, percebe os primeiros
traços de surdez, isola-se e fica mais agressivo. São
repertório obrigatório as suas nove sinfonias, quartetos de
cordas, 32 sonatas para piano, variações para piano, entre
muitas outras composições .
Lied Curtas canções para piano e voz e facilidade
melódica (o novo lirismo), para melhor exprimir os sentimentos
mais íntimos, compõem as características principais dos lieds
(canção, em alemão). Esta forma é desenvolvida por Franz
Schubert (1797-1828), Robert Schumann (1810-1856) e mais tarde
por Johannes Brahms (1833-1897). Inicialmente os textos são
retirados da poesia romântica alemã de Goethe (1749-1832) e
Heine (1799-1856). Também são características da época das
formas livres como os prelúdios, rapsódias, noturnos, estudos,
improvisos etc., presentes na obra de Frederic Chopin (1810-1849)
e Franz Liszt. Essas peças são geralmente para piano solo e
realçam o virtuosismo instrumental, dividindo a importância do
concerto entre a obra e a presença do intérprete. Tal
tradição já vinha do classicismo, em que diversos compositores
eram instrumentalistas virtuoses, como é Niccoló Paganini
(1782-1840).
Sinfonismo Compreende obras para grandes orquestras e
privilegia o virtuosismo. Destaca-se a obra de Johannes Brahms,
com suas quatro sinfonias, dos franceses César Franc (1822-1890)
e Hector Berlioz (1803-1869), que revoluciona a concepção da
orquestra clássica ao acrescentar mais instrumentos em sua
Sinfonia fantástica, op.14, de 1830, reformulando os modos de
instrumentação vigentes em sua época.
Escolas nacionais A música do final do século XIX,
embora imbuída do individualismo, reflete as preocupações
coletivas relacionadas aos movimentos de unificação que marcam
a Europa no período. As composições unem o pensamento nacional
às melodias populares. Representam as escolas nacionais os
compositores tchecos Smetana (1824-1884) e Antonin Dvorak
(1841-1904), o escandinavo Grieg (1843-1907) e os russos A.
Borodin (1834-1887), Modest Mussorgski (1839-1881) e
Rimski-Korsakov (1844-1908). Sua música é marcada pelo
modalismo e pelo colorido das melodias populares.
Extremos da tonalidade A consolidação do romantismo
liga-se ao poema sinfônico de Liszt e à ópera de Wagner. Com a
obra desses dois compositores ocorre a revolução harmônica. A
música deixa de repousar sobre uma só escala, em modulações
tradicionais, e torna-se livre. A cada momento o ouvinte está
dentro de uma nova escala. A tensão harmônica é tamanha que a
velha harmonia entra em colapso. Tudo para atingir o máximo de
expressividade. Nesse movimento, Liszt retoma elementos da
música modal, trazidos das melodias populares e do modo de
cantar dos povos da Hungria.
Franz Liszt (1811-1886) nasce na Hungria e estuda música em
Paris. Aos 12 anos, exibe pela Europa sua extrema agilidade ao
piano. Vive amores conturbados, sem jamais se casar. É pai de um
filho e duas filhas (a última, Cosima, se casa com Wagner).
Recolhe-se à Ordem Terceira de São Francisco, em Roma, torna-se
abade, recusando o sucesso e a glória. Nesse período, compõe
obras que antecipam o atonalismo expressionista alemão. Entre
suas obras destacam-se Rapsódias húngaras, Sinfonia Fausto,
Funerais (harmonias poéticas e religiosas) e Bagatela sem
tonalidade.
Richard Wagner (1813-1883) nasce em Leipzig, Alemanha, e cresce
num meio familiar formado por atores. Escreve, ainda na
infância, tragédias em estilo grego e shakespeariano. Aos 15
anos dedica-se a estudar música. Sua primeira ópera de grande
porte é Rienzi, sob influência da ópera francesa. O sucesso
vem com O navio fantasma. Depois virão: Lohengrin, O anel dos
nibelungos, Mestres-cantores. Participa de movimentos sociais em
1848 e 1849. Em Tristão e Isolda, de 1865, reivindica o retorno
do drama ao seu caráter religioso (ritual) primitivo.
Verismo A utilização de temática cotidiana, na qual os
personagens não são heróis mitológicos, mas pessoas comuns,
constitui o verismo termo originado da palavra vero (verdade em
italiano), que corresponde na ópera à literatura naturalista do
francês Émile Zola. Pode ser notado nas óperas dos italianos
Giuseppi Verdi (1813-1901) e Giacomo Puccini (1858-1924) e do
francês Georges Bizet (1838-1875). São óperas representativas
desse período La traviata, de Verdi, La bohème, de Puccini, e
Cármen, de Bizet.
Romantismo tardio Após a virada do século, as idéias de
Wagner perduram em obras de compositores-regentes, voltados
principalmente para a escrita orquestral, como Richard Strauss
(1864-1949) e Gustav Mahler (1860-1911). Esses compositores
introduzem as grandes massas orquestrais , corais chegando a mais
de mil pessoas (Sinfonias no 8, de Mahler), e sinfonias de longa
duração, compreendendo por volta de uma centena de temas
(Sinfonias alpinas, de Strauss). Inovam ainda com o uso de
recursos instrumentais que enfatizam o caráter programático da
música (os instrumentos de metal imitando carneiros no Don
Quixote de Strauss; o som dos sinos das igrejas na primeira
Sinfonia de Mahler).
Impressionismo
Esse movimento surge na França, em
meados do século XIX, como um novo modo de percepção do mundo,
que se reflete principalmente na música e nas artes plásticas.
A arte do extremo oriente fonte de inspiração dos
impressionistas se revela na valorização da sonoridade dos
instrumentos musicais e dos jogos harmônicos. O principal
representante desse movimento é Claude Debussy (1862-1918), que
se afasta das temáticas épicas do romantismo. Retoma, em seu
quarteto de cordas, elementos modais da música européia do
passado, escalas de origem oriental e uma sucessão de acordes
que recombinam as notas como modo de modificar o colorido
harmônico. Exerce influência sobre Maurice Ravel (1875-1937),
Erik Satie (1866-1925) e diversos compositores de movimentos
nacionais, como o brasileiro Heitor Villa-Lobos (1887-1959), o
húngaro Bela Bartok (1881-1945) e o russo Ígor Stravinski
(1882-1973).
Claude-Achille Debussy (1862-1918) nasce em Saint
Germain-en-Laye, perto de Paris. Aos 11 anos ingressa no
conservatório de Paris, onde surpreende seus professores com
harmonias inusitadas. Recebe, aos 22 anos, o cobiçado Prêmio de
Roma (tal como Berlioz). Entre 1890 e 1900, compõe a ópera
Pelléas e Mélisande, tornando-se reconhecido por toda a Europa,
a Suíte bergamasque para piano, o Quarteto de cordas de 1893, La
mer (O mar) e Imagens para orquestra e os dois volumes de
Prelúdios para piano. No final de sua vida segue um novo
caminho, afastando-se do impressionismo, como se vê em Jeux.
Morre em 1918, durante um bombardeio sobre Paris, oito meses
antes da vitória francesa.
Modernismo
EUROPA
Dodecafonismo As primeiras experiências dodecafônicas
realizadas por Arnold Shoemberg, na década de 20, são suas
Cinco peças para piano, op. 23, e Suíte para piano, op. 25.
Nessas peças Shoemberg elabora um sistema de composição em que
dispõe, segundo suas necessidades composicionais, as 12 notas em
uma determinada ordem (a série dodecafônica), que deve ser
respeitada ao longo da peça. Isso garante a unidade dos
elementos utilizados dentro da composição atonal.
Serialismo A prática dodecafônica, assumida por dois de
seus alunos, Anton von Webern (1883-1945) e Alban Berg
(1885-1935), assume diversas faces. O romantismo atonal de Berg
em suas óperas Wozzek e Lulu, e o pontilhismo de Webern
inexistência de melodia, com sons pontilhados no silêncio
são considerados marcos na música do século XX. No
pontilhismo, Webern isola cada uma das notas da série
dodecafônica, evitando assim qualquer relação harmônica entre
elas. Outra importante contribuição de Webern, que também tem
a influência forte de Schoemberg, é a expansão da idéia de
melodia de timbres: uma melodia pode ser criada não apenas
mudando-se as notas, mas também mudando-se os timbres. Nesse
sentido ele reinstrumenta uma obra de Johann Sebastian Bach (o
cânon a seis vozes da Oferenda musical), na qual a melodia de
Bach alcança os mais diversos instrumentos da orquestra. A
textura pontilhista e a melodia de timbres tornam-se um fascínio
entre os compositores mais jovens, que então expandem a idéia
de série para os ritmos, para os timbres, para as intensidades,
desenvolvendo o serialismo integral.
Arnold Schoemberg (1874-1951) nasce em Viena, onde passa grande
parte da sua vida até instalar-se em Berlim. Autodidata, acumula
grande erudição musical. É convocado para o serviço militar
durante a 1a Guerra e reduz sua atividade como compositor. A
escada de Jacob, iniciada em 1917, só é finalizada em 1922.
Nessa fase elabora o método de composição dodecafônica. Em
1933, muda-se para Boston e, em seguida, para Los Angeles, nos
Estados Unidos, fugindo das perseguições do nazismo. Além de
grande compositor, destaca-se como professor e como teórico.
Neoclassicismo Em sentido oposto à trajetória
progressista de Shoemberg, o compositor Igor Stravinski busca os
ritmos marcados e repetitivos das músicas rituais populares.
Suas primeiras obras de impacto são os balés O pássaro de
fogo, de 1910, Petrouchka, de 1911, e A sagração da primavera,
de 1913. Assim como as obras de Debussy, têm forte influência
sobre as escolas nacionais que perduram nessa época. De caráter
marcante, Stravinski e sua música traçam os rumos da música
atonal não-dodecafônica, fundando, em 1918, o neoclassicismo na
música. Utiliza melodias extraídas do passado medieval e
renascentista, de cantos populares e do jazz americano, que se
misturam a um atonalismo repleto de dissonâncias. São dessa
época A história de um soldado (1918) e As bodas (1923). Seguem
esse caminho, entre outros, Paul Hindmith (1895-1963) e diversos
compositores franceses.
Igor Stravinski (1882-1971) nasce em Oranienbaum, perto de São
Petersburgo, na Rússia. Embora seu pai fosse músico, foi
educado para seguir a advocacia, mantendo paralelamente seus
estudos musicais. Aos 20 anos, passa a ter aulas com
Rimski-Korsakov. O sucesso vem cedo na vida de Stravinski. Em
1910, Sergei Diaguilev, empresário do Balé Russo, encomenda o
primeiro de uma série de balés, Pássaro de fogo. De 1920 a
1939, vive na França. Durante a 2a Guerra muda-se para os
Estados Unidos e se torna cidadão americano em 1945. Entre seus
discípulos americanos, destaca-se o compositor e regente Robert
Craft.
AMÉRICA
Mesmo distante do centro das revoluções musicais do século,
desenvolve-se na América uma nova música que tem como
referência a obra inovadora de Claude Debussy. Os principais
representantes desse movimento são os compositores
norte-americano Charles Edward Ives (1874-1955) e brasileiro
Heitor Villa-Lobos (1887-1959), que servem de modelos
composicionais no continente, até o pós-guerra. Ambos encontram
na harmonia atonal livre novas formas musicais para exprimir suas
idéias.
Estados Unidos De modo bastante radical e pioneiro,
Charles Ives faz uso de intervalos microtonais menores do que o
meio-tom entre as notas de uma escala cromática e também dos
clusters, cachos de notas que tendem ao ruído, tocados com as
palmas das mãos, ou mesmo com o antebraço, sobre as teclas do
piano. Sua obra exerce influência direta sobre Henry Cowell,
definindo uma nova vertente para a música norte-americana.
Brasil Villa-Lobos utiliza combinações instrumentais
inusitadas, como em seu Choro no 7, onde o clarinete deve ser
tocado como se fosse um trompete, sem a boquilha, ou ainda em sua
Suíte Sugestina, de 1929, onde três metrônomos
instrumento mecânico utilizado para marcar o andamento musical
são usados como instrumentos de percussão. Bastante
admirado por compositores europeus, especialmente pelos franceses
Darius Milhaud (1892-1974), Olivier Messiaen (1908-1992) e Edgard
Varese (1885-1965), permanece como um dos marcos da música
brasileira.
Música
contemporânea
Serialismo integral Decorre
diretamente do serialismo de Webern, da música de Olivier
Messiaen (1908-1992) e do italiano Luigi Dallapicolla
(1904-1975). Consiste em um sistema em que são acrescentadas à
série de alturas uma série de durações, uma série de
intensidades e uma série de timbres. A idéia do serialismo
serve também para a organização de séries de 23 notas
(incluídos os microtons), ou séries de sons sem alturas
definidas, como é feito na música eletrônica e na música para
percussão. O desenvolvimento do serialismo integral se deve aos
compositores Karel Goeyvaerts (1823-1993), Pierre Boulez (1925),
Karlheinz Stockhausen (1928) e Henry Pousseur (1929), dentre
outros que, na década de 50, fundam os festivais de verão de
Darmstadt, Alemanha.
Pierre Boulez (1925-) nasce em Montbrisson, França. Estuda
composição em Paris, com Olivier Messiaen e René Leibowitz,
entre 1946 e 1956. Lidera o movimento da música de vanguarda
francesa. Funda, em 1975, o Instituto de Pesquisas Científicas e
Musicais (IRCAM), responsável pelo desenvolvimento de
tecnologias musicais, que aglutina hoje os principais
pesquisadores em música eletrônica. Entre suas peças
destaca-se o Marteaux sans maitre (O martelo sem mestre).
Música concreta e música eletrônica Surgem no início
da década de 50, entre compositores franceses e alemães que
atuam junto a emissoras de rádio. O grupo francês é liderado
por Pierre Schaeffer (1920-1984), ligado ao rádio e televisão
francesa (ORTF), e se dedica à música concreta. Realiza
composições a partir de fitas de sons cotidianos pré-gravadas,
recortadas e remontadas diversas vezes até atingir o efeito
desejado. A música eletrônica surge junto ao estúdio da rádio
de Colônia, na Alemanha, criada por um grupo liderado por
Herbert Eimert, onde atuam Stokhausen, Luciano Berio (1926),
Gyorgy Ligeti (1923) e compositores do grupo de Darmstadt. O
objetivo é realizar a síntese do som a partir dos recursos
eletrônicos de uma emissora de rádio, dentro dos procedimentos
do serialismo.
Karlheinz Stockhausen (1928-) nasce em Colônia, na Alemanha, e
inicia sua formação musical em 1947. Realiza, em 1951, seu
Primeiro estudo eletrônico, no estúdio da rádio de Colônia.
Entre 1952 e 1953, estuda no Conservatório de Paris, com Olivier
Messiaen e Pierre Schaeffer. Atravessa diversas fases: serialismo
integral, música eletrônica, música aleatória e, por fim, a
música de natureza mística, que vem pautando sua produção
desde a década de 70. Destacam-se obras recentes: Os sete dias
de semana, Stimmung e Mantra, baseadas na filosofia hindu.
Música aleatória Surge nos Estados Unidos e na Europa
como a música feita pelo acaso. Tem antecedentes em uma peça de
Mozart (século XVIII), que abre espaço para que o intérprete
escolha ao acaso a seqüência das notas e ritmo e, mais
recentemente, no jazz americano, também fruto da improvisação.
O aleatório é levado ao extremo pelo americano John Cage
(1912-1993) e pelos compositores da escola de Darmstadt, como
Stockhausen, Luciano Berio e Boulez. Cage propõe que se combinem
aleatoriamente gravações recolhidas na rua ou no rádio, em sua
peça Fontana mix. Em Imaginary landscape, dispõe cada um dos
elementos da composição (o tempo, as durações, os sons, as
intensidades) em cartelas que deverão ser recombinadas pelo
intérprete de acordo com o conjunto de linhas lido em hexagramas
sorteados no I Ching, o livro da mutações. Stockhausen, em
Klavierstuk IX (Peça para piano IX) e Stimmung para oito
cantores dispõe em suas partituras passagens que o intérprete
reordena segundo sua vontade. Em Musik fur eine haus (Música
para uma casa) o público passeia por diversas salas de uma casa
onde, em cada sala, se desenvolve uma música.
Teatro musical É herdeiro da ópera e da música de
cabaré do entreguerras e se expressa na música de Kurt Weill.
Entre os compositores de teatro musical, destacam-se o argentino
radicado na Alemanha Maurício Kagel (1931) e Hans Werner Henze
(1926). Suas obras refletem engajamento político, tecendo
críticas aos valores burgueses. Outros compositores, como John
Cage, seu aluno La Monte Young (1935) e integrantes do grupo de
Darmstadt realizam alguns trabalhos com características do
teatro musical.
Ecletismo Conquistas da música do século XX, como o
serialismo, a música eletrônica, a aleatória, o teatro musical
e o concretismo, se desgastam, levando compositores europeus a
incorporar elementos de culturas não-ocidentais como a hindu, a
chinesa ou a africana. Entre eles Stokhausen, Ligeti, e o
italiano Luciano Berio, que incorpora à sua técnica
composicional elementos da música polifônica dos povos da
África Central, como em sua composição Coro. Entre os
compositores que se voltam à música tonal e modal estão os
minimalistas americanos Phillip Glass (1937), Terry Riley (1935),
Steve Reich (1936). Suas músicas não se destinam exclusivamente
às salas de concerto, mas estão presentes no cinema, como as
trilhas de Koyanisqaatsi e Mishima, de Phillip Glass .
Luciano Berio(1925-) inicia sua carreira ao lado de K.
Stokhausen, Boulez e Bruno Maderna. Em 1953 funda, em Milão, o
Estúdio de Fonologia. Muda-se para os Estados Unidos, em 1967,
de onde é extraditado sob acusação de atividade antiamericana.
Em Paris, dirige o centro de eletroacústica do Instituto de
Pesquisas Científicas e Musicais (IRCAM), de 1974 a 1980. Suas
obras mais conhecidas são: a Sinfonia, uma grande colagem de
diversos materiais sonoros, em homenagem ao líder negro Martin
Luther King, e as Folk songs, canções populares com arranjos
vanguardistas da música de concerto.
NOVA GERAÇÃO
Atualmente uma série de novos movimentos convivem com práticas
remanescentes da música do pós-guerra. Destacam-se:
Nova simplicidade Defendida pelo alemão Wolfgang Rihm
(1952), visa uma estética da liberdade da arte, propondo uma
música com ausência de dificuldades, livrando-se da carga
histórica.
Nova complexidade Resgata a importância estrutural do
serialismo integral, em uma música que expressa a complexidade e
multiplicidade do homem atual. O principal compositor dessa
corrente é o inglês Brian Ferneyhough (1943).
Música espectral Tem seu centro na França, liderada por
Tristan Murail (1947), Michael Levinas (1949) e Gerard Grisey
(1946). A música surge a partir do estudo de espectros sonoros
de instrumentos e sons cotidianos com auxílio de recursos da
eletrônica e informática.
Multi-music É o caminho seguido nos Estados Unidos por
Meredith Monk e Joan La Barbara, que trabalham misturando
recursos audiovisuais como vídeo, teatro, dança etc.
Música e política Tendo por base o envolvimento do
compositor com diversas causas sociais, compositores de variadas
tendências têm se dedicado a uma música engajada, como o
alemão Helmut Lachenman (1935) e o brasileiro Willy Correa de
Oliveira (1938).
Computer-music Utiliza recursos da informática na
síntese sonora, nos cálculos de estruturas musicais e nas
transformações de informação numérica em informação
sonora, além de simulações diversas.
Música erudita no
Brasil
A mais remota referência à
música no Brasil encontra-se na carta de Pero Vaz de Caminha,
que relata ao rei de Portugal a musicalidade dos nativos. Outras
referências aparecem nas anotações do padre Manoel da Nóbrega
que chega ao Brasil com os primeiros jesuítas, a partir de 1549,
mencionando a música de catequese realizada, em geral, a partir
de melodias gregorianas. Os primeiros registros de partituras
são de 1557: melodias indígenas anotadas pela tripulação de
Jean de Lery.
Barroco
A música do período barroco no Brasil compreende uma larga
faixa de gêneros praticados no século XVIII. Dentre as escolas
de composição destacam-se as do Recife, Bahia e Minas Gerais.
Bahia A música renascentista e os antigos organuns
medievais servem de modelo à produção da época. A música
instrumental começa a ser registrada no século XVI, geralmente
por compositores europeus em atividade no país. Na Bahia,
encontram-se referências ao padre Pedro da Fonseca, primeiro
organista da Sé de Salvador, em 1559. A partitura mais remota,
de 1759, é um Recitativo e ária, de autoria desconhecida, com
texto cantado em português.
Recife Há documentos no Recife relativos à atuação dos
compositores Inácio Ribeiro Nóia (1688-1773) e Luís Álvares
Pinto (1719-1789), este descendente de mulatos, cuja obra
encontra-se documentada, como seu Te Deum laudamos.
Minas Gerais Compositores brasileiros que atuavam nas
cidades mineiras de Diamantina, Ouro Preto e Tiradentes, no
século XVIII, em sua maioria mulatos, deixam a produção mais
bem documentada da época. O barroco mineiro se inspira nas
óperas napolitanas de compositores como Davide Perez e Jommeli e
na música religiosa portuguesa de caráter polifônico, do
início do barroco europeu. Entre seus principais compositores
estão José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, Marcos Coelho
Neto, Inácio Parreira Neves e Manoel Dias de Oliveira.
José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746-1805) nasce em Serro
Frio, perto da atual Diamantina, filho de um português e uma
escrava liberta, Joaquina Emerenciana. É organista, compositor e
professor de música. Em 1789, torna-se alferes. Muda-se para o
Rio de Janeiro, em 1801, atuando como organista. Entre suas obras
de importância estão a Missa em fá e o Ofício das violetas,
escrito para uma orquestra sem violinos.
São Paulo Embora em menor quantidade, são encontradas
obras paulistas do século XVIII. O compositor André da Silva
Gomes (Lisboa 1752-S. Paulo 1823) é seu principal representante.
Música na Corte No final do século XVIII, o carioca
José Maurício Nunes Garcia domina uma linguagem composicional
própria, com uma riqueza harmônica comparável aos padrões
europeus da época. É professor de Francisco Manuel da Silva,
autor do Hino Nacional Brasileiro e primeiro diretor do
Conservatório do Rio de Janeiro. A chegada da missão cultural,
trazida por dom João VI, em 1816, agita o ambiente musical na
Corte. O compositor austríaco Sigismund Neukomm (1778-1858) traz
a música de Haydn, de quem é o discípulo favorito. A ópera
napolitana é representada pelo compositor da metrópole Marcos
Portugal (1762-1830).
José Maurício Nunes Garcia (1762-1830) nasce no Rio de Janeiro,
filho de mulatos. Inicia cedo os estudos de música e em 1792
ordena-se padre. Em 1798, torna-se mestre-capela e professor de
música da catedral da Sé do Rio de Janeiro e, em 1808, mestre
de música da Capela Real. Destaca-se como compositor e regente,
sendo responsável pela estréia do Réquiem de Mozart, em 1819,
e da Criação de Haydn, em 1821. De sua obra são conhecidas
cerca de 400 peças, destacando-se sua Abertura em ré maior,
talvez a primeira grande sinfonia brasileira, a ópera Zemira e a
Missa de réquiem, de 1816.
Romantismo
O romantismo no Brasil é basicamente importado da França e
inicia-se após a independência. Nessa época, são encenadas
diversas óperas no Imperial Teatro de São Pedro de Alcântara,
destruído por um incêndio em 1851, e substituído pelo Teatro
Provisório, em 1854. Francisco Manuel da Silva funda, em 1833, a
Sociedade Beneficência Musical, que promove concertos. Em 1834
é criada a Sociedade Filarmônica do Rio de Janeiro.
Ópera nacional O fato mais importante do romantismo
brasileiro é a criação de uma ópera nacional. Os principais
representantes são os compositores Antonio Carlos Gomes e Elias
Álvares Lobo (1834-1901), auxiliados por libretistas como
Machado de Assis e José de Alencar. Em 1861, estréia Joana de
Flandres, de Carlos Gomes, com texto em português totalmente
mutilado pelos cantores italianos que a apresentam. O movimento
progressivamente perde força e uma última ópera é apresentada
nesse período: O vagabundo, de Henrique Alves de Mesquita.
Antonio Carlos Gomes (1836-1896) nasce em Campinas, São Paulo,
filho de Maneco Gomes, músico e regente da banda local. Em 1859,
foge de casa para estudar música no Rio de Janeiro. É
matriculado no Conservatório de Música do Rio de Janeiro, por
ordem do imperador, onde estuda com professores italianos. Em
1860 torna-se preparador de óperas na Imperial Academia de
Música e Ópera Nacional. A partir de 1863 parte para estudos em
Milão. Adquire notoriedade na Itália, onde compõe as óperas
Il Guarany, Fosca, Maria Tudor, Lo schiavo, O condor e o
oratório Colombo. Em 1895, volta ao Brasil e torna-se diretor do
Conservatório Musical de Belém do Pará.
Folclorismo Ainda voltados para os padrões europeus
estão os compositores Glauco Velasquez (1884-1914), seguidor do
cromatismo francês, Henrique Oswald (1852-1931), adepto do
impressionismo, e Leopoldo Miguez (1850-1902), seguidor do
cromatismo de Wagner e Liszt.
O caminho para o nacionalismo das primeiras décadas do século
XX começa a ser aberto por compositores brasileiros com
formação erudita européia, principalmente francesa,
representados por Brasílio Itiberê (1846-1913), Luciano Gallet
(1893-1931), Alberto Nepomuceno (1864-1920), Francisco Braga
(1865-1945) e Alexandre Levy (1864-1892), que se utilizam de
temas do folclore brasileiro. A tendência de nacionalização da
música erudita brasileira está presente também na dança e na
canção urbana de Francisca Hedwiges Gonzaga, a Chiquinha
Gonzaga (1847-1935), e Ernesto Nazareth (1863-1934), que produz
uma música de harmonia simples e de forte aspecto popular.
Chiquinha Gonzaga (1847-1935), pianista e compositora desde a
infância. Em 1885, já famosa por suas peças de caráter
dançante, compõe uma opereta, A corte na roça, e inicia uma
série de 77 partituras teatrais, como A sertaneja, Juriti, e
Maria. Suas composições traduzem, com fidelidade, a ginga, os
improvisos e o lirismo das serestas, dos choros e das danças de
crioulos.
Modernismo nacionalista
O pleno desenvolvimento do uso de elementos folclóricos é
realizado por Heitor Villa-Lobos (1887-1959), cuja obra determina
a estética nacionalista brasileira até os dias de hoje. Esse
movimento não apenas incorpora elementos das melodias populares
e das complexas melodias indígenas, como desenvolve sonoridades
típicas, presentes na obra de Villa-Lobos. O canto de pássaros
brasileiros, como a araponga, aparece em suas Bachianas 4 e 7; em
O trenzinho do caipira reproduz a sonoridade de um trem; no seu
Choro 8 busca reproduzir o som de pessoas numa rua. Sua estética
espelha uma tendência européia, presente nas obras de Bella
Bartok, Stravinsky, Manuel de Falla e, por sua vez, serve de
modelo para compositores como Francisco Mignone, Lorenzo
Fernandez, Radamés Gnatalli, Mozart Camargo Guarnieri , entre
outros. Mesmo após a introdução de elementos da estética
dodecafônica no Brasil, diversos compositores figuram em um
aparecimento tardio do nacionalismo, como Sérgio de Vasconcelos
Correia, Oswaldo Lacerda e Mário Tavares.
Heitor Villa-Lobos (1887-1959) nasce no Rio de Janeiro e começa
a tocar violoncelo profissionalmente aos 12 anos. É influenciado
por autores populares como Ernesto Nazaré. Viaja pelo país, se
interessa pelo folclore brasileiro e compõe obras como Amazonas
e Uirapuru. Participa da Semana de Arte Moderna de 1922. Vive na
Europa de 1923 a 1930, onde é marcado pelo impressionismo. Entre
suas principais obras estão suas Bachianas brasileiras e Choros,
onde funde a música do compositor alemão Bach e o chorinho.
Música contemporânea
No período que se estende da década de 40 até os dias de hoje,
a música brasileiravive movimentos de nacionalização e de
internacionalização. A introdução do dodecafonismo por H. J.
Koellreuter na Bahia, o movimento Música Viva, o Manifesto de
1946, o movimento Música Nova e a música eletrônica marcam o
período.
Música viva Em 1939, ao nacionalismo identificado com a
ditadura Vargas opõe-se o Movimento Música Viva, liderado pelo
compositor e professor alemão Hans Joachim Koellreuter,
introdutor da música dodecafônica no Brasil. Entre seus alunos
destacam-se os compositores Claudio Santoro (1919-1989), Guerra
Peixe (1914-1993), Eunice Catunda (1915-) e Edino Krieger (1928).
Embora com tendência diversa da original, a Escola de Música da
Universidade Federal da Bahia é herdeira direta dos Seminários
de Música de Salvador, dirigidos por Koellreuter. São seus
representantes o compositor Ernest Widmer e seus alunos
Lindenberg Cardoso, Rufo Herrera, Jamary de Oliveira e
recentemente Fernando Cerqueira (1941) e Paulo Lima (1954).
Manifesto de 1946 Em 1946, Cláudio Santoro, Guerra Peixe,
Eunice Catunda e Edino Krieger assinam o manifesto de 1946, que
tem o objetivo de recuperar o trabalho com a música popular
brasileira, a partir das ferramentas fornecidas por Koellreuter.
Guerra Peixe e Santoro seguem, posteriormente, um caminho mais
pessoal, marcado por elementos da música regional, e influenciam
a música popular instrumental brasileira. Embora não ligados
diretamente ao manifesto, diversos compositores aderem ao uso
livre de elementos da tradição brasileira, como Kilza Setti,
Ronaldo Miranda, Marlos Nobre, Almeida Prado. Atualmente
destacam-se Mariza Rezende (1944), Roberto Victório (1959) e
Sergio Rojas (1960).
Claudio Santoro (1919-1989) nasce em Manaus. Atua como violinista
até 1938, iniciando-se na composição ao término de seus
estudos no Conservatório do Distrito Federal. Em 1940, torna-se
aluno de Koellreuter e entra em um período estritamente
dodecafônico. Incorpora depois elementos da música folclórica
e, por fim, aproxima-se da composição progressista, em obras
como Impressões de uma usina de aço e Ode a Stalingrado. Em
1947 estuda com Nadia Boulanger, em Paris.
Música nova Também de tendência internacionalista é o
movimento Música Nova, de 1963, liderado por Gilberto Mendes
(1922) e Willy Correa de Oliveira (1938). As peças de Willy,
como a série Phantasiestuck, Um movimento vivo, La flamme
d une chandelle refletem o pensamento dos serialistas da
escola de Darmstadt e as idéias dos poetas concretistas Haroldo
e Augusto de Campos e Décio Pignatari. Destacam-se ainda Mário
Ficarelli (1937), Aylton Escobar e novas gerações de
compositores voltados para o teatro musical como Eduardo Álvares
(1959), Luiz Carlos Czeko (1945), Carlos Kater (Tim Rescala)
(1961) e Tato Taborda (1960). Na música instrumental,
destacam-se compositores como Silvio Ferraz (1959), Lívio
Tragtemberg (1963) e Eduardo Seincman (1955).
Gilberto Mendes (1922- ) nasce em Santos, São Paulo. Tem contato
com a música de Cláudio Santoro e Olivier Toni. Autodidata, é
um dos pioneiros da música aleatória e do teatro musical no
Brasil. Em 1962, idealiza o festival Música Nova, que até hoje
revela compositores. Entre suas peças, destacam-se Santos
Football Music, Beba-Coca-Cola, Ulisses em Copacabana. Sua mais
recente produção reflete uma tendência para a nova
consonância, movimento que retoma elementos das músicas
tonais e modais.
Música eletrônica O movimento reflete as tendências da
música eletrônica européia e americana e ganha vitalidade,
apesar das limitações de infra-estrutura e defasagem com
relação aos grandes centros de produção musical. Entre seus
compositores estão Jorge Antunes (1942), Conrado Silva e Rodolfo
Coelho de Souza (1952). Mais recentemente ganha impulso com a
implantação de novos estúdios eletrônicos (Stúdio
Panaroma-UNESP-FASM e Laboratório de Linguagens Sonoras, em São
Paulo) e a multiplicação de estágios de compositores
brasileiros em estúdios da Alemanha, França e Estados Unidos.
Destacam-se Flo Menezes (1962), Rodolfo Caesar (1950), Paulo
Chagas, Paulo Álvares (1960), Augusto Valente, Aquiles
Pantaleão (1965) e José Augusto Mannis (1958).